O Plantão que não chega

À espera de uma vacina

Dona Dalva mora com Seu Claudio em um apartamento na Vila Zelina, em São Paulo. Ambos com 77 anos, já passaram por muitas na vida, mas nunca por uma pandemia. Quando nasceram a gripe espanhola já era coisa de filme de terror e do passado.

Quando foi anunciado que o mundo estava sendo assolado pelo Coronavírus, que da China passou para Itália, se espalhou pela Europa, e chegou no Brasil, e a quarentena e o isolamento começaram a tentar ser praticados por aqui, os casal passou a ver o mundo pela TV ( não a cabo, pelos canais abertos, mesmo). As conversas pelo prédio cessaram. As caminhadas pelo bairro e no parque minguaram. Eventos familiares também acabaram e tudo ficou restrito às visitas para entregar compras do supermercado e tomar um solzinho de máscara na praça, em um banco afastado.

Como celular para eles é só para ligar. — “Deus me livre ficar igual um zumbi nesse aparelho. Vocês estão sempre ansiosos”, costumam dizer para os filhos e netos, as informações são restritas aos telejornais e plantões de Tv.

“ — Mas dá para se distrair também, pai. Deveria tentar ainda mais agora, na pandemia” — disse um dos filhos.

Curvas de contágio para cima; depois para baixo; primeira onda; segunda onda; tsunami no Brasil; ameaça de terceira onda. Presidente brasileiro negando, minimizando e fazendo piada , reprises de novelas ruim ( mas porque não reprisam “ O Bem Amado?”, diziam), Papa Francisco rezando sozinho na Praça São Pedro (com transmissão ao vivo em cadeia mundial, e que dada a situação de emergência rezou em frente ao crucifixo que dizem ter salvo o mundo da Peste Negra em 1500 e tantos). Realmente, por essa eles não esperavam.

Também chegavam a eles histórias de pessoas conhecidas, ou conhecidas de conhecidos, que estavam na UTI ou tinham morrido.

Números caíram e voltaram a subir. Lá se foram quase dez meses confinados. Pela TV, souberam que existiam muitas vacinas para serem aprovadas. “Parece que é da China, feita em parceria com o Instituto das Cobras, o Butantan”. O Ministro da Saúde fechou acordo para a compra, depois voltou atrás, porque o presidente não quer.

E todo dia, o prelúdio do governador de SP, na TV: “ Teremos vacina até novembro”, depois virou Dezembro. “Teremos vacina em janeiro”, disse, depois das eleições.

Um dia pela tarde, início de dezembro: “Tantantantantantantantantã…..” — Plantão da Globo! “ — Claudio, vem aqui! Plantão! Deve ser a vacina”

- O Reino Unido aprova a vacina da Pfizer para uso emergencial e começará a imunizar a população na próxima semana. O governo brasileiro afirma que essa vacina não serve para os brasileiros e não tem aprovação para ser usada por aqui.

O casal volta às atividades dentro do apartamento. Tentam ligar aos filhos, para entender melhor essa confusão. Ninguém atende. Não gostam de falar no telefone.

Passam alguns dias: “Tantantantantantantantantã…..” — Plantão da Globo! “Cláudio, vem aqui! Deve ser a vacina!”

Pfizer vende 60 milhões de doses da vacina contra Covid na América Latina . México, Chile, Peru, Costa Rica e Equador podem começar a vacinar em janeiro. O governo brasileiro não respondeu aos emails da farmacêutica sobre a aquisição da vacina.”

Dona Dalva e Seu Claudio tomam uma decisão. — “Filho, quando vier aqui pode instalar a internet no meu celular, por favor”.

Jornalista. Por aqui: crônicas, uns reviews, alguns textos sobre músicas e mais desabafos. Enfim, um lugar para escrever.

Jornalista. Por aqui: crônicas, uns reviews, alguns textos sobre músicas e mais desabafos. Enfim, um lugar para escrever.