Nem toda ausência será resolvida

Ela me contou que sentia uma certa vergonha de ter sentimentos por ele. Pensei que se tratava de raiva, de que lhe desejasse o mal, tinha inveja, enfim, qualquer coisa ruim.

Mas, para minha surpresa, com brilhos nos olhos, ela disse que o amava. Ainda. Depois de anos afastados— confessou que parou de contar depois dos cinco anos.

- O sentimento não caducou. Eu amo sem sequer vê-lo, sem ter esperança de volta e sem sequer ter notícias dele. Penso nele todos os dias .— ela disse

Ela mesma não se incomodava com o sentimento, de fato. Era uma mulher alegre, sem melancolia. Há tempos o afastamento dele não doía. Não nutria esperança. Não sabia como ele estava, onde vivia, se tinha casado ou não, nem se estava vivo. Nem nas redes sociais ela procurava qualquer informação.

- Não houve um motivo para terminamos. Ele desapareceu e eu imagino que tenha conhecido outra pessoa. Nunca tive coragem de perguntar. Às vezes, é melhor ter dúvida, do que ter certeza.

E era essa passividade nos sentimentos que todos criticavam, ofereciam conselhos e a fizeram começar a ter vergonha de sentir amor.

- Mas será que você ama mesmo? Não deve ser outro sentimento? Nostalgia? — perguntei

- Que diferença faz! — ela respondeu

De fato, nenhuma. Ela não foi vista com mais ninguém desde que terminaram, nem parece atraída, nem incomodada com o fato. Pelo jeito, está há anos sem se envolver com qualquer pessoa.

E é nessa hora que todos começam a duvidar da sua sanidade. Como se prender a alguém tão distante no espaço-tempo? Como não desejar respostas para seguir em frente? Como não se contentar com nada, nem com uma migalha de atenção ou afeto?

De tanto insistirem, ela chegou a procurar ajuda. Foi a um psiquiatra, que associou o sentimento, que, segundo ele, não tinha razão de existir, como uma esquizofrenia, talvez transtorno de personalidade, mas não tinha certeza. Receitou apenas fluoxetina.

- Até que funcionou. Não lembrava dele mais. Mas comecei a esquecer tudo e não conseguia me concentrar. Parei um mês depois.

Depois, aconselhada por uma amiga, foi em um tarólogo.

-Ele disse que nossos caminhos não se cruzariam mais. Não nessa vida.

Para ela, o dinheiro foi gasto à toa.

Um outro amigo indicou fazer um diário, contando a história dos dois. Ele disse que conheceu o método em um workshop e seria bom para exorcizar a história.

-Não gostei. No papel tudo pareceu sem graça, principalmente o final da história. Mas, para mim, foi um tempo muito feliz.

Assim, ela me contou, que já não tentava buscava soluções para o sentimento guardado. Evitava falar sobre o assunto por conta das julgamentos, de estar “fora da curva”, do que, pelo jeito, é aceitável para lidar com amor.

-Mas você está feliz? — perguntei.

-Mais até do que antes. Não tem o que resolver. Só sentir. Sentimento tem que ter razão, por acaso?

Jornalista. Por aqui: crônicas, uns reviews, alguns textos sobre músicas e mais desabafos. Enfim, um lugar para escrever.

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