Crônica

De todas as vezes que o encontrei, não teve uma em que eu achei que estava bem vestida.

Nem eram roupas velhas, desbotadas, rasgadas, ou de dormir, coisa do tipo. Não era esse o problema. Eu até que tentava me arrumar bastante, escolhia a roupa com o maior cuidado, levava horas até decidir.

Mas o resultado não era bom…antes do encontro, a roupa parecia “ok” e eu até me sentia bem.

O problema era depois.

Passado o encontro, eu começava a relembrar tudo. Primeiro, ele nunca me elogiou, depois, revisitava as conversas e de repente, algo que não foi muito bem, alguma fala meio evasiva, éramos meio travados um com o outro e sempre tinha um sinal de que não iríamos durar. Tudo isso, e, claro, a roupa que deixava tudo mais complicado, com um ar apocalíptico.

Por mais que nossos encontros tivessem sido estabelecidos, meio sem querer, com algum espaçamento eu tinha tempo pra escolher um figurino melhor e me preparar, e por isso nem reclamava dos intervalos, no final dava na mesma e eu sempre me arrependia.

-Ai, por que fui usar aquela calça tão colorida? — lembro do primeiro encontro.

Em outro encontro, acho que a sandália branca meio que atrapalhou tudo e ele se esquivou de responder de uma ex-namorada.

Aí depois tentei algo mais clássico: meia calça e sapatilha. Pensando bem quem usa isso? Depois disso ficamos dois meses sem nos ver.

Teve depois a vez do cinto com o vestido, que não me favorecia em nada e dessa vez nos estranhamos um pouco em uma conversa sobre política. E depois, o vestido de bolas e, enfim, o fatídico dia da bota de montaria.

Eu me sentia ligada a ele, de alguma forma. O fato é que o período entre um encontro e outro eram, pra mim, cheios de planos, de euforia, e que da próxima vez eu acertaria.

E agora, relembro os últimos passos dessa história. Foi no dia da bota, que teve direito a um breve sono compartilhado, depois de uma noite pra lá de agradável e pensava que dessa vez estava tudo certo.

Porém, enquanto me vestia para ir embora, e ele ainda dormia, já olhava aquelas botas, que pareciam estar mais para o figurino de uma super heroína, e me contorcia de arrependimento da escolha. Eu não poderia ter escolhido coisa pior e sonhava que fosse possível voltar atrás.

Olhava para ele dormindo, tão sereno, e pensava. “Dormindo assim que nem um anjo, e ele sabe que acabou”.

Quanto mais lembrava de detalhes da noite, somada às botas de cano longo no calor que fazia e elas, claro, não combinavam, ia ficando mais chateada Me deu vontade de chorar tamanho o desespero.

Ele ali, tão lindo, dormindo, e eu pensando numa forma de ir embora sem me despedir, para que ele não me visse. Afinal, seria humilhante demais saber que acabava ali.

Caíram algumas lágrimas de nervoso, enquanto via meu reflexo no vidro da janela, até que sou surpreendida pelo olhar de estranhamento dele.

- O que aconteceu? — ele perguntou assustado. — É. Pra piorar, ele viu a bota e as lágrimas.

- Não sei, acho que sou eu, sabe. Não você. O problema não é você — respondi.

- Mas, por que está falando isso? É o que estou pensando? — falou quase rindo.

- Sim. É isso — falei, olhando pra baixo.

- Então, melhor você ir — agora, pareceu bravo.

Lembro de virar as costas, sem nem olhar para trás, sem dar uma palavra. Chorando e envergonhada.

Não nos falamos mais. Apenas uma mensagem na madrugada, alguns dias depois, em que ele me perguntou novamente: “ É isso?”. Não respondi. Dessa vez, acho que teria que escolher algo muito especial, caso acontecesse um novo encontro, e o cansaço das roupas erradas me deixava paralisada.

Depois de tanto tempo, ainda me pergunto o que ele pensava naquele dia.

Jornalista. Por aqui: crônicas, uns reviews, alguns textos sobre músicas e mais desabafos. Enfim, um lugar para escrever.

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