Um dia ele me contou que sua mãe o mandava ele ajoelhar no milho de castigo, quando era criança.

Hoje ela seria indiciada por maus-tratos, com certeza. Nada justifica essa tortura, mas fiquei curiosa — Esse castigo acontecia quando brigava na escola? Tirava nota ruim? Por bater no irmão? Por roubar no mercadinho?

Ele respondeu que não lembrava exatamente. Não tinha memória suficiente para “cruzar esses dados”, mas conseguia lembrar exatamente do desespero da dor e desconforto:

- Começava ruim, claro, mas ia piorando gradativamente até ficar insuportável, interminável, inenarrável, inexplicável…

O instinto natural era levantar quando começasse a doer muito, mas como ficava “sob escolta”, às vezes com os olhos vendados, o que, para ele, indicava um modo mais avançado de braveza da mãe, qualquer tentativa de sair do castigo era repreendida:

“Não levanta senão vai ficar mais duas horas” — ela ordenava.

- Não sei quanto tempo era aquele tormento! Cinco minutos, ou meia hora, mas o horror parecia eterno.

Para minha surpresa, o castigo, para ele, terminava de forma inusitada, mesmo com os joelhos machucados e com uma dor que ressoava por dias:

- Quando era “liberado” eu sentia uma felicidade inexplicável. Às vezes até amor, por ela ter me libertado daquela dor e não ter me deixado naquele sofrimento por mais tempo.

Depois do fim do castigo, ele passava um tempo eufórico, livre e sabia que o próximo tormento iria demorar, já que para sua sorte, ela era acometida por um culpa depois e não repetia o castigo com frequência, ainda que parecesse estar com raiva.

Ele também me contou que depois dos 12 anos a mãe parou de aplicar a tortura.

- Aí quando está brava, ela para de falar comigo. Me ignora, não fala comigo, não olha na minha cara.

E quando ela decide voltar a falar, ele também sente um certo êxtase.

Essa memória de infância surgiu quando desabafava sobre o ambiente abusivo do seu trabalho, da falta de tempo de se dedicar à bateria, de não ter tempo de fazer coisas que gosta, não ter tentado mais com a Viviane, que ele gostava muito e saíram algumas vezes — e ele — um — dia — não — sabe — bem — o — porquê — não aceitou o convite dela, e não se falaram mais. Porém, vai entender essas coisas da vida: um mês depois conheceu sua atual esposa e ele, sei lá, acabou ficando com ela e não sabe exatamente também o porquê, e hoje, quase dez anos depois, não se suportam mais, e não tem coragem de pedir a separação, apesar da convivência horrorosa e cheia de críticas. -Não estou feliz, em nada!

E foi nesse contexto da sua vida, que lembrou com muita clareza das sensações do castigo.

  • A vida me deu alguns “milhos”, e eu achava que tinha que passar por eles para depois ficar alegre. E o pior é que ninguém me obrigou a ajoelhar neles.

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Sem querer repetir frases prontas de “Feliz Ano Novo”, meu desejo para os próximos 365 dias é que você não aceite ajoelhar no milho por nenhum motivo.

Jornalista. Por aqui: crônicas, uns reviews, alguns textos sobre músicas e mais desabafos. Enfim, um lugar para escrever.

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